Espaços

terça-feira, 15 de setembro de 2015

É preciso ir embora

Texto de Antônia Macchi, publicado em Recortes (obvious).

Vá embora do trabalho que te atormenta. Daquela relação que você sabe não vai dar certo. Vá embora “da galera” que está presente quando convém. Vá embora da casa dos teus pais. Do teu país. Da sala. Vá embora. Por minutos, por anos ou pra vida. Se ausente, nem que seja pra encontrar com você mesmo.



Estava na festa de despedida de uma amiga, quando ouvi calada e com atenção seu dolorido discurso sobre o quanto ela se preocupava com a decisão de ir embora. Dizia se preocupar com a saudade antecipada da família, com a tristeza em deixar um amor pra trás e com a dor de se afastar dos amigos. Ela iria embora para Londres com tantas incertezas sobre cá e lá, que o intercambio mais parecia uma sentença ao exílio.

Dentre dicas e conselhos reconfortantes de outras amigas, lembro-me de interromper a discussão de forma mais fria e prática do que gostaria: “Quando você estiver dentro daquele avião, olhar pra baixo e ver todas estas dúvidas e desculpas do tamanho de formigas, voltamos a falar. E você vai entrar naquele avião, nem que eu mesma te coloque nele.” Ela engoliu seco e balançou a cabeça afirmativa.

Penso que na ocasião poderia ter adoçado o conselho. Mas fato é que a minha certeza era irredutível, tudo que ela precisava era perspectiva. Olhar a situação de outro ângulo, de cima, e ver seus dilemas e problemas como quem olha o mundo de um avião. Óbvio, eu não tirei essa experiência da cartola. Eu, como ela, já havia sido a garota atormentada pelas dúvidas de partir, deixando tudo pra trás rumo ao desconhecido. Hoje sei que o medo nada mais era do que fruto da minha (nossa) obsessão em medir ações e ser assertiva. E foi só com o tempo e com as chances que me dei que descobri que não há nada mais libertador e esclarecedor do que o bom e velho tiro no escuro.

Hoje a minha amiga não tem mais dúvida. Celebra a vida que ela criou pra ela mesma lá na terra da rainha, onde eu mesma descobri tanto sobre minha própria realeza. Ironicamente – e também assim como eu – ela aprendeu que é preciso (e vai querer) muitas vezes uma certa distancia do ninho. Aprendeu que nem todo amor arrebatador é amor pra vida inteira. Que os amigos, aqueles de verdade, podem até estar longe, mas nunca distantes. Hoje ela chama o antigo exílio de lar, e adora pegar um avião rumo ao desconhecido. Outras, como eu, e como ela, fizeram o mesmo. Todas entenderam que era preciso ir embora.

É preciso ir embora.

Ir embora é importante para que você entenda que você não é tão importante assim, que a vida segue, com ou sem você por perto. Pessoas nascem, morrem, casam, separam e resolvem os problemas que antes você acreditava só você resolver. É chocante e libertador – ninguém precisa de você pra seguir vivendo. Nem sua mãe, nem seu pai, nem seu ex-patrão, nem sua pegada, nem ninguém. Parece besteira, mas a maioria de nós tem uma noção bem distorcida da importância do próprio umbigo – novidade para quem sofre deste mal: ninguém é insubstituível ou imprescindível. Lide com isso.

É preciso ir embora.

Ir embora é importante para que você veja que você é muito importante sim! Seja por 2 minutos, seja por 2 anos, quem sente sua falta não sente menos ou mais porque você foi embora – apenas sente por mais tempo! O sentimento não muda. Algumas pessoas nunca vão esquecer do seu aniversario, você estando aqui ou na Austrália. Esse papo de “que saudades de você, vamos nos ver uma hora” é politicagem. Quem sente sua falta vai sempre sentir e agir. E não se preocupe, pois o filtro é natural. Vai ter sempre aquele seleto e especial grupo que vai terminar a frase “Que saudade de você…” com “por isso tô te mandando esse áudio”; ou “porque tá tocando a nossa música” ou “então comprei uma passagem” ou ainda “desce agora que tô passando aí”.

Então vá embora. Vá embora do trabalho que te atormenta. Daquela relação que você sabe não vai dar certo. Vá embora “da galera” que está presente quando convém. Vá embora da casa dos teus pais. Do teu país. Da sala. Vá embora. Por minutos, por anos ou pra vida. Se ausente, nem que seja pra encontrar com você mesmo. Quanto voltar – e se voltar – vai ver as coisas de outra perspectiva, lá de cima do avião.

As desculpas e pré-ocupações sempre vão existir. Basta você decidir encarar as mesmas como elas realmente são – do tamanho de formigas.

domingo, 30 de agosto de 2015

domingo, 12 de julho de 2015

Dalva

Dalva é uma jovem negra, diarista, com cabelos de tranças, um corpo forte, e dois filhos para criar. Dalva apanhava do marido durante 15 anos. Esta é a história de Dalva que não me deixou dormir. 



Conheci Dalva por meio de uma faxina na minha casa, agendada por uma das meninas que moram comigo através de um serviço de limpezas online. Chegou às 7h30 naquela manhã de quinta-feira, em pleno feriado. Mais que pontualmente, para quem havia marcado de chegar às 8h00. Também pudera. "Saí de casa às 5h30 para chegar aqui", vim saber depois. Dalva mora no bairro Vale Formoso. Não conheço Campinas ao ponto de avaliar se esse bairro é perto ou longe da Cidade Universitária. Porém ela chegara aqui e isso bastava, depois das rotineiras desistências das diaristas anteriores.

[Tocando nesse ponto, aproveito para fazer um desabafo: por mim, não chamaríamos diarista alguma. Acredito que com boa organização daria para deixar a casa limpa e em ordem. Outro ponto que me incomoda: empresa 'X' de prestação de serviços domésticos. Esse serviço já é pouco remunerado por quem se dispõe a paga-lo diretamente a uma diarista. Em empresas como essa, quanto do valor total pago pelos clientes é repassado para as empregadas domésticas terceirizadas? Nada é esclarecido. Mesmo discordando desde o início da tal necessidade desses serviço, agradeço ao destino por ter me apresentado à Dalva. Agora vou apresentá-la.]

Dalva é uma jovem negra, de pele retinta, alta, de aparentemente 30 anos de idade. Cabelos longos trançados, brincos de conchas peroladas, sorriso e olhar cativantes. Sua presença de mulher forte, entretanto, se contradiz com uma postura submissa ao conversar com minha colega de casa.

"Dalva, faz isso, isso, isso e aquilo (...). Vou ter que sair, qualquer coisa, pode falar com a Tati." "Sim, senhora! Tudo bem, dona Laura."

E foi assim o meu primeiro contato com Dalva. O segundo foi quando ela me pediu para comprar alguns produtos de limpeza que estavam faltando na casa. Enquanto eu tomava café – Dalva não quis me acompanhar –, ela perguntava um pouco da minha vida, de onde eu vim e o que fazia. Perguntava bastante e ouvia atenta. Perguntava novamente e depois calava, absorvendo o que eu dizia. Senti que ela queria compartilhar suas experiências, também. Contudo, havia muito serviço a fazer.

Meio dia. Terceiro encontro. Dalva bateu na porta do meu quarto para perguntar se podia preparar um miojo que ela trouxe de casa para almoçar. "Claro", respondi.

Durante todo o dia, Dalva fez os serviços de casa, conversando comigo algumas vezes, e terminou até mais cedo do que calculávamos. Assim que varreu a calçada, veio para a cozinha me avisar que acabara o seu serviço, verificando se eu precisava que algo mais fosse feito. Respondi que não e ofereci um sanduíche que havia preparado para nós duas. "Senta aí, Dalva. Você toma Nescau?". "Não, obrigada, Tati." Ainda bem que ela não me chamava de senhora. Foi bem aí, nessa hora, que Dalva talvez sentira-se à vontade para me contar sobre a sua vida. A partir daí, ao invés de um mero lanche, senti um soco no estômago.


terça-feira, 12 de maio de 2015

12.05.2015

Faço coisas inesperadas. Quando faz frio, durmo de bruços ao invés de conchinha. Acordo cedo aos domingos e não saio da cama no meio da semana. Marco encontros comigo mesma e não compareço. Sou a contravenção ou a versão do contra?

Sou apenas o meu próprio boicote.