Espaços

domingo, 12 de julho de 2015

Dalva

Dalva é uma jovem negra, diarista, com cabelos de tranças, um corpo forte, e dois filhos para criar. Dalva apanhava do marido durante 15 anos. Esta é a história de Dalva que não me deixou dormir. 



Conheci Dalva por meio de uma faxina na minha casa, agendada por uma das meninas que moram comigo através de um serviço de limpezas online. Chegou às 7h30 naquela manhã de quinta-feira, em pleno feriado. Mais que pontualmente, para quem havia marcado de chegar às 8h00. Também pudera. "Saí de casa às 5h30 para chegar aqui", vim saber depois. Dalva mora no bairro Vale Formoso. Não conheço Campinas ao ponto de avaliar se esse bairro é perto ou longe da Cidade Universitária. Porém ela chegara aqui e isso bastava, depois das rotineiras desistências das diaristas anteriores.

[Tocando nesse ponto, aproveito para fazer um desabafo: por mim, não chamaríamos diarista alguma. Acredito que com boa organização daria para deixar a casa limpa e em ordem. Outro ponto que me incomoda: empresa 'X' de prestação de serviços domésticos. Esse serviço já é pouco remunerado por quem se dispõe a paga-lo diretamente a uma diarista. Em empresas como essa, quanto do valor total pago pelos clientes é repassado para as empregadas domésticas terceirizadas? Nada é esclarecido. Mesmo discordando desde o início da tal necessidade desses serviço, agradeço ao destino por ter me apresentado à Dalva. Agora vou apresentá-la.]

Dalva é uma jovem negra, de pele retinta, alta, de aparentemente 30 anos de idade. Cabelos longos trançados, brincos de conchas peroladas, sorriso e olhar cativantes. Sua presença de mulher forte, entretanto, se contradiz com uma postura submissa ao conversar com minha colega de casa.

"Dalva, faz isso, isso, isso e aquilo (...). Vou ter que sair, qualquer coisa, pode falar com a Tati." "Sim, senhora! Tudo bem, dona Laura."

E foi assim o meu primeiro contato com Dalva. O segundo foi quando ela me pediu para comprar alguns produtos de limpeza que estavam faltando na casa. Enquanto eu tomava café – Dalva não quis me acompanhar –, ela perguntava um pouco da minha vida, de onde eu vim e o que fazia. Perguntava bastante e ouvia atenta. Perguntava novamente e depois calava, absorvendo o que eu dizia. Senti que ela queria compartilhar suas experiências, também. Contudo, havia muito serviço a fazer.

Meio dia. Terceiro encontro. Dalva bateu na porta do meu quarto para perguntar se podia preparar um miojo que ela trouxe de casa para almoçar. "Claro", respondi.

Durante todo o dia, Dalva fez os serviços de casa, conversando comigo algumas vezes, e terminou até mais cedo do que calculávamos. Assim que varreu a calçada, veio para a cozinha me avisar que acabara o seu serviço, verificando se eu precisava que algo mais fosse feito. Respondi que não e ofereci um sanduíche que havia preparado para nós duas. "Senta aí, Dalva. Você toma Nescau?". "Não, obrigada, Tati." Ainda bem que ela não me chamava de senhora. Foi bem aí, nessa hora, que Dalva talvez sentira-se à vontade para me contar sobre a sua vida. A partir daí, ao invés de um mero lanche, senti um soco no estômago.